quinta-feira, 29 de outubro de 2015

“Sinto muito.”

Passam os minutos. Passam as horas. Passam alguns dias. Leu de tudo. Fez de tudo. Mas é tão difícil fugir do próprio silêncio. Tem até um dito japonês: você pode fugir do barulho do rio e das folhas ao vento, mas o verdadeiro barulho está dentro de você. E, além disso, Niki não se interessa de ir bem nessa matéria. Aliás, bem que gostaria de ser reprovada em matemática sentimental. E assim bate na porta. “Entre!” “Oi, Andréa.” “Niki! Mas que bela surpresa! Só que os anúncios ainda não estão prontos… Você se tornou uma modelo super bem paga! Vai ser famosa no mundo inteiro!” Niki olha para ele e sacode a cabeça.Sim… mas não sou famosa para o homem a quem amo… Gostaria de dizer, mas fica quieta. Em vez disso, esboça um sorriso. “Bobo… você sabe onde está o Alex? A sua secretária disse que não está no escritório.” “Não. Acho que desceu. Talvez esteja nobar aqui em frente. Não sei.” “O.k., obrigada… a gente se vê.” Andréa Soldini olha para Niki, que pega o elevador. Coitadinha, está acabada, enquanto Alessandro está justamente no bar embaixo. Mas são tantas outras coisas que Andréa sabe. Às vezes, porém, convém ser ignorante. Niki sai pelo portão, anda pela calçada. Do outro lado da rua vê estacionado o Mercedes. Pronto, o carro está ali. Quem sabe está mesmo no bar. Niki se aproxima da vitrine e olha para dentro. Na última mesa ao fundo, diante deum suco, está Alessandro. Observa-o conversar divertido, bater papo e sorrir para aquela jovem que está sentada diante dele. De vez em quando toca a mão dela. “Você entendeu?, querem me dar outro projeto já e não posso deixar de aceitar…” “Mashavíamos dito aos Merini que faríamos uma viagem com eles.” “Eu sei, quem sabe não na primeira, mas na última semana de julho. Ou então vamos em agosto!” Mas bem naquele instante Alessandro a vê. Refletida no espelho do balcão. Niki está ali, dianteda vitrine. Alessandro desculpa-se. “Com licença, tenho de verificar uma coisa ali fora por um instante…” “Vá, pode ir, enquanto isto eu dou um telefonema.” Elena não percebeu nada. Alessandro se levanta e sai do local. “Oi…” Alessandroprocura ficar fora da visão do local. “O que você está fazendo aqui?” “Eu vim procurá-lo no escritório… mas eu o vi aqui. De mãos dadas com aquela mulher.” Niki aponta para Elena dentro do bar, que fala ao celular. Depois olha novamente para Alessandro e sorri. “Imagine que eu estava me preparando para amassar o seu carro novamente.” Alessandro fica em silêncio. Niki procura receosa pelos seus olhos. “É outra irmã sua, não é?” “Não.” “E quem e?” Alessandra continua em silêncio. “É aquela que queria decorar a sua casa?” “Sim.” Niki ri com amargura. “E você disse que não havia um motivo válido para continuar comigo… você fez que eu me sentisse uma nulidade, me fez acreditar que eu não tinha estado à altura, que era eu que não servia. Você me obrigou a me reavaliar. Me fez sentir insegura como nunca… Fiquei dias inteiros pensando, esperando… Eu disse a mim mesma: quem sabe ao final aceitará o que não aceitava em mim, qualquer coisa que eu tenha feito ou dito errado…Ou então, pior, qualquer coisa que eu não tenha feito e ele esperava de mim… Eu me senti sozinha como nunca. Sem uma razão. Cheia de dúvidas. E você, no entanto… sabia tudo. Mas então por que não disse logo que ela havia voltado? Por quê?… Eu teriacompreendido, teria aceitado tudo mais facilmente.” “Sinto muito.” “Não. Alex, foi você que me fez assistir àquele filme… amar é nunca ter de pedir perdão. E eu gostaria de acrescentar uma coisa… é também saber dizer como você é um merda.” Alessandro continua em silêncio. “Você não diz nada. Claro, em algumas situações, é muito mais fácil não falar nada… bem, então sou eu que vou dizer. Daqui a pouco eu vou ter que prestar o exame de maturidade e entrar na idade adulta. Estou mal, não estou conseguindo estudar, mas quem sabe vou passar. Eu quero conseguir. No entanto, eu gostaria muito de saber quando é que você vai fazer o seu exame de maturidade, quando vai amadurecer… sabe, Alex, em todos estesmeses você me encheu de presentes, mas, no final, pegou de volta o mais bonito. O meu conto de fadas.” E se afasta, sobe em sua moto e, por fim, sacode a cabeça e até sorri. Porque essa é Niki.

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